Essa é a minha história de Cura
Eu lembro daquela desconexão com o trabalho, há uns anos. Atendendo aos trabalhos que chegavam, repetindo muitos dos mesmos roteiros, entregando algo apenas material — que não dava acesso ao espírito do que existia ali — tudo isso já não fazia sentido. Havia a sensação de que o excesso de racionalidade havia esvaziado a força do símbolo. Ser artista é brincar de ser Deus, ouvi certa vez. Eu já não brincava. Já não criava. Não reconhecia arte na minha fotografia.
Era preciso voltar a um estado de presença profunda, pensar com o coração. Entender o trabalho como caminho espiritual — ou, ao menos, como espelho de quem eu sou e do que se vive agora.
Foi então que, em uma iniciação, questionei meu caminho profissional. A resposta veio simples e radical: minhas mãos coladas no chão.
“É aqui embaixo. É aqui que você vai servir. Na escuridão, no feminino, no cuidado desse lugar das profundezas.”
Mesmo sem entender completamente, voltei aberta. E foi assim que chegou um chamado. Um convite inóspito: fotografar uma amiga recém-diagnosticada com câncer metastático cerebral. Um documental de família diante de um diagnóstico e da possibilidade de fim. Foi nesse ambiente suspenso, nesse entre-mundos, que entendi o meu lugar. Acompanhei também a raspagem de cabelo e a festa de despedida. Depois vieram outras mulheres, querendo se ver — e serem vistas — nesses momentos de transição de suas vidas.
Eu tinha reencontrado meu caminho. Estava profundamente mexida com aquele trabalho e com a minha invisibilidade dentro daquelas famílias. Em momentos de tamanha vulnerabilidade, diante de tanta insegurança e medo, tudo o que não importa cai por terra. Ficam apenas as coisas belas: o afeto, a presença, a união, o amor.
Algo se moveu ali. Eu ainda não sabia, mas a vida começava a me preparar.
Meses depois, dois pequenos nódulos apareceram na minha tireoide. Tudo parecia comum, acompanhável, sob controle. Mas o corpo sussurrava outra coisa. Seis meses depois, o exame revelou a mudança: câncer. Tive medo. E, ao mesmo tempo, uma voz interna dizia que estava tudo certo — eu vinha sendo preparada para isso.
Fui para a cirurgia. Deu tudo certo. A doença se foi. Mas a cura — como disse meu médico — essa quem faz sou eu. E foi então que a travessia começou de verdade: a mais dura e a mais reveladora da minha vida. Algo morreu ali, e não foi apenas o que estava doente. Caíram a pressa, a ilusão de controle, algumas verdades sobre mim e sobre relações que já não podiam mais permanecer.
No corpo, compreendi um antigo provérbio: quem está saudável tem mil desejos; quem adoece tem apenas um. Há uma força imensa nesse desejo único. Ele conduz às entranhas da alma, limpa o que precisa morrer para que a vida volte a fluir. Porque a doença é isso: um bloqueio do fluxo, uma memória parada, um ponto onde a energia deixou de dançar.
Foi no casulo que minha borboleta aprendeu a liberdade. Bateu as asas e se foi, ensinando-me a maior delas: liberdade é quando não há mais escolha. Quando algo chega ao núcleo da alma, a vida simplesmente se move através de nós.
E aqui estou. Mais viva do que nunca. Iniciada no cerne do meu trabalho de alma, vivendo uma cura que atravessa todos os corpos e se estende para além desta experiência. A vida é mistério — biografias, ancestralidades, relações — essa teia que nos tece para que ela continue vivendo através de nós.
Façam seus exames. Mas escutem seus corpos para além deles. O corpo sente antes da mente entender. A intuição é o instrumento clínico mais antigo que existe. Ela salva vidas.
Já sinto as asas se abrindo.
Voa, borboleta, voa. 🦋