Era uma vez um rei e uma rainha que haviam tido uma filha há pouco tempo. A rainha sentia um vento antigo por dentro que a desalojava de si. Sem se reconhecer, imaginou que esse vão pedia por mais um ser que o ocupasse. Mas em pouco tempo o rei anunciou que um outro filho chegaria para o casal. A segunda filha nasceu num dia em que a primavera já se anunciava na natureza...pássaros cantavam numa manhã ensolarada.Ao ter a menina nos braços a rainha viu uma criança de cabelos escuros e olhos azuis celestiais, como o brilho das estrelas. Agora com a família enfim completa, tudo parecia em tranquilidade repousar.
Alguns meses depois do seu nascimento, chegou ao reino uma notícia sombria. Uma cigana, vinda de um vilarejo antigo e vizinho, guardava uma ferida com o rei e, agora, ameaçava tomar-lhe o reinado. A rainha, muito preocupada, viu seu leite secar e a pequena princesa por leite chorar; chorando alto e sem parar. Quando examinada pelos médicos e sábios, eles perceberam que nada havia de errado com a criança.
Dizem que depois da passagem daquela cigana alguns segredos foram alí cimentados nas paredes daquele castelo.
E sim, a princesa cresceu saudável, ainda que não tão forte como a sua irmã, nem tão doce quanto sonhara a rainha; trazia teimosia, e determinação.
Cresceu cercada de muito amor pelos seus familiares. E ainda que carregasse essa força no coração, por vezes ali não se sentia inteira; gostava de se afastar. miúda que só, se aninhava na rede; mirando as estrelas na escuta de uma saudade distante que não sabia nomear.
Nos fins de semana, fugia para o reino da avó, lá bebia poções mágicas feitas pelas manhãs e descobria portais escondidos dentro de um armário forte erguido pelo seu avô ex-soldado de guerra, Fort esse abarrotado de álbuns. Voltava a tempos antigos nas terras frias de um leste europeu, como quem desfia um fio secreto ela viajava por reinos distantes, pelos jardins internos dos seus familiares e pelos labirintos de suas memórias.
O tempo passou e a menina se fez mulher.
Era uma princesa diferente. Não pedia bailes nem sonhava com príncipes como sua irmã mais velha; sonhava com estrada. Trazia no peito um oco antigo, e questionava tudo. Preocupava-se com os pobres, doentes, injustiças, as árvores e os animais — interesses pouco louvados no palácio.
Amou e apaixonou-se como qualquer princesa, porém viu-se sozinha quando se tornou mulher
adulta. mas isso não a deixava triste. Ao contrário, dentro dela acenava para
que isso fosse recebido como obra do destino, para ser aceita, atendida e transformada.
“Transformada em que?” – perguntava-se a princesa sempre que se punha a pensar em sua vida.
Um dia a princesa decidiu partir pelo mundo para conhecer outros reinos. Mesmo sabendo que aventuras fora do Palácio, eram proibidas para damas e jovens donzelas. Tentaram dissuadi-la, mas a vontade já tinha cavalo, acompanhante e um cavaleiro. Levava consigo alguns pertences e muita coragem. Mas levava também no coração aquele sentimento, seu velho conhecido, que por vezes a abatia e lhe causava a sensação de desamparo, ainda que verdadeiramente nunca lhe houvesse faltado nada.
Muitos reinos ela conheceu. Muitas outras formas de governo ela viu. Alguns em condições ainda piores que o seu, onde muitas injustiças imperavam: o povo era muito sofrido e a natureza não era respeitada.
Mas também encontrou reinados onde a justiça predominava, onde o rei e a rainha governavam com bondade, onde pobres e famintos não existiam e os problemas eram resolvidos com atenção e cuidado pelos conselheiros reais. Com tantas experiências e descobertas a princesa tinha cada vez mais o olhar seguro. Porém ainda vivia em seu coração o mesmo sentimento de desamparo com o qual havia iniciado sua jornada. “O que será isso?” - ela se perguntava – o amparo que lhe falta?” “Como posso preencher esse vazio e trazer ao meu coração.
Certo dia saíram de um Reino quando o Sol ainda despontava no Horizonte. Havia no ar o frescor e o perfume da primavera. O dia transcorreu calmo e sem grandes surpresas, mas quando a noite caiu, uma sombra invisível aos olhos, mas assustadora ao coração, tomou conta do bosque pelo qual passavam, a acompanhante caiu de febre e a princesa pediu ao cavaleiro que a levasse imediatamente de volta ao Reino de onde haviam partido pela manhã.
Ficaria ali, sozinha, junto à fogueira. Tinha medo — e, mesmo assim, algo a convidava a ficar. Fogueira acesa, coragem pequena — mas inteira, sua. Quando o som dos cascos se perdeu, outro ruído surgiu, crescendo até ensurdecer: um dragão, de olhos faiscantes e escamas luzidias, apagou a fogueira num sopro.
As labaredas que saíam de sua enorme boca iluminavam seu corpo coberto de escamas. Em seus olhos podia se ver fúria e ameaça, mas a princesa conseguia também ver algo que lhe era familiar.
O Dragão começou a emitir sons que a assustaram ainda mais. Eram palavras, mas numa língua que ela não conseguia decifrar. Porém, para seu espanto, apesar do medo, sentiu uma forte atração por aquele ser horripilante, que agora acenava para que ela subisse em suas costas. Ela atendeu o pedido como se estivesse encantada, e sem forças para reagir foi levada pelos ares até um Reino desconhecido de todos. Um lugar que ninguém conseguiria chegar... a não ser que tivesse a coragem de enfrentar o escuro e a solidão daquele bosque.
Confusa, ela desceu das costas do dragão e foi conduzida para dentro de um castelo onde tudo
brilhava e resplandecia. Jardins belíssimos, aposentos luxuosos, e servos gentis a acompanhavam em direção ao salão principal. Os dias passaram, e ali nada faltava — beleza, banquetes, carinhos. Dias velozes e macios. O vazio parecia saciado, mas o espírito murchava em segredo.
Ao caminhar pelos corredores do castelo, ela via vários quartos, cada qual com portas lindamente esculpidas, como se um habilidoso artista as tivesse entalhado.
O Dragão a esperava deitado sobre almofadas num grande salão, onde harpas e liras eram tocadas por jovens vestidos de puro linho. “Estarei sonhando?” ela se perguntou... “Ou estarei delirando em febre e perdida na noite do bosque?”
Os dias se passaram e a princesa, cada vez mais deslumbrada com as belezas do Palácio do dragão, aos poucos ia se esquecendo de seu propósito e sua busca, aqueles que a fizeram dar início a sua caminhada pelo mundo.
Ali, o vazio e o desamparo eram preenchidos a todo instante por bela música, por arte, pelos
banquetes, festas e gentilezas que a ela eram oferecidas, num mundo onde não havia tristeza, nem dúvidas, apenas alegrias. Mas à medida que sua alma se enchia de encantamento, seu espírito se sentia cada vez mais vazio, como se algo secasse dentro dela.
Então, certo dia em que o Dragão não estava no Reino, a princesa se colocou a vagar pelos
corredores do Palácio. E viu as portas talhadas, que ela tanto havia admirado ao chegar.
Ahh...quanta curiosidade ela tinha de saber o que havia atrás de cada uma elas.
Ao tocar na fechadura da primeira, uma voz suave, que ao mesmo tempo causava um frio pelo corpo todo, se fez ouvir no corredor.
“Quer entrar?” – disse a voz – “A decisão é sua, mas saiba que a cada porta que você adentrar, seres irão apresentar-se e você terá de encará-los, pois não terá mais como voltar atrás” “Não haverá retorno sem enfrentamento. Entre, se quiser. Toda porta cobra o que revela. “
O medo segurava sua mão, mas mais forte que o medo era o desejo de conhecer que a fez dar o passo e abrir a primeira porta.
Ela entrou.
Num salão de ilusões, fadas dançavam ao redor de uma dama belíssima, que, de perto, era uma velha arrogante, escrava das aparências. A princesa, assustada ao perceber traços seus refletidos naquele rosto, pensou em correr…fugir….mas se lembrou da voz no corredor e de seu conselho. Nada havia
a fazer a não ser encarar. E ela assim o fez: sentou-se diante da velha e a ouviu.
Ouviu como nunca antes alguém a tinha ouvido. Horas passou ali, acolhendo o sofrimento da velha senhora, que aos poucos ia lhe contando de suas tristezas e desilusões.
Ao sair do quarto, no rosto da velha, além das rugas da idade, agora havia também o sorriso da
Esperança e a luz da Sabedoria, que voltou a brilhar em seus olhos.
Na porta seguinte, uma criança em pânico mandou que ela fosse embora; gritou até desmaiar. A princesa a tomou no colo, cantou sem saber que sabia, e a pequena, ao despertar, beijou-lhe a face e saiu dançando pelo palácio. Vieram outras portas: medos com armadura, orgulhos que eram curativos tortos, sombras pedindo nome e água. A princesa atravessou todas — cansada, mas decidida — até a última porta. Mas essa não era como as outras em que ela já havia entrado, pois essa porta não tinha fechadura para ser aberta por fora. “Como poderei entrar?”, ela se perguntou. Bateu. Pediu que fosse aberta, e a porta se abriu. A princesa entrou no quarto; apesar de cansada, agora tinha o coração mais calmo e pronto para o que viesse. E o que ali estava a fez estremecer da cabeça aos pés: era o próprio dragão que a esperava, com seus olhos faiscantes, como quem diz: “você foi avisada para não entrar nos quartos…”
Mas o que o dragão não esperava é que a princesa, depois de ter encarado tanta dor, tristeza e medos nos quartos anteriores, já estivesse pronta para a mais temida fera que poderia atacá-la. Ao ver a princesa assim segura e calma, o dragão redobrou sua tentativa de assustá-la. Ela respirou fundo; olhou o fogo e reconheceu o frio que lhe faltava. Quando o golpe veio, estendeu a mão: tocou as patas, depois a face em brasa.
Tudo escureceu no mesmo instante em que um forte vento invadiu o quarto e a princesa desfaleceu.
Despertou no mesmo bosque, a fogueira quase apagada. Ao acordar, ela se viu com dois jovens ao seu lado: o cavaleiro da guarda e um rapaz desconhecido, que se apresentou como o príncipe, filho do rei daqueles bosques por onde ela passava.
Ainda atordoada, mas descansada como se tivesse dormido uma ótima noite de sono, a princesa sentou-se e viu que a fogueira estava terminando de queimar o último galho e que o dia já ia amanhecendo. O que havia acontecido? O que fora aquilo? Sonho, delírio, iniciação?
Bem, uma coisa ela tinha certeza: naquela noite havia aprendido algo muito importante — aprendera a confiar. Abrir as portas, encarar e confiar. A confiança se instalou em seu coração e ocupou o lugar vazio que antes lhe trazia sentimentos de desamparo e angústia, que a tinham acompanhado sua mãe por tantos anos.
Naturalmente o príncipe se apaixonou pela princesa e ela por ele. Casou-se como mandam as lendas. Teve um filho, um único filho. Porque, agora, que a confiança se deitou no vão antigo; surgiu um novo clarão pedindo lugar. E ela, enfim, compreendeu o que a mãe-rainha veio lhe ensinar: haveria de guardar, para si, um espaço que só ela mesma poderia habitar.
E viveram felizes para sempre...Mas por vezes a felicidade abria intervalos, ainda que temporariamente, porque portas pediam mãos firmes e novas criaturas — dentro e fora — pediam escuta.